06 setembro, 2006

Não perca o “fio” da meada

A Anatel deve estar encaminhando nos próximos meses um novo edital de licitação para compra de freqüências para prestação do serviço de acesso à internet em banda larga sem fio (Wi-Max). A licitação atual foi suspensa pelo TCU (Tribunal de Contas da União) no dia 04 de Setembro, a qual alega que houve discrepância nos estudos da Anatel provocando, assim, erros na fixação dos preços mínimos. Logo, teremos empresas vendendo serviços de conexão à Internet em banda larga por meio de redes sem fio, ou Wireless (Em inglês: sem fio). A novidade é que agora existiram freqüências para banda larga no espaço aéreo (ou Wi-Max) regulamentadas pela Anatel, criando concorrência com as empresas que utilizam o “fio” para transmissão de dados. Assim que a licitação for realizada, e as empresas começarem a operar, será possível conectar qualquer computador, desde que possua conexão Wireless, à Internet de qualquer ponto da cidade sem o uso de cabos ou fios. O novo serviço é importante, principalmente porque pode reduzir o preço das tarifas praticadas pelas operadoras para conexão em banda larga.
No entanto, já existem freqüências homologadas pela Anatel para instalação de redes sem fio de curto alcance, que permitem a conexão de computadores numa distância menor, que pode ser ampliada com o uso de antenas, cerca de 5Km. A febre no uso de Wireless está principalmente dentro dos escritórios e de residências. Isso porque, na maioria dos casos, o custo do cabeamento pode chegar ao custo do Wireless, e também porque facilita para empresas que alugam imóveis. Com cerca de R$250,00 do roteador (AccessPoint) e mais aproximadamente R$ 70,00 por computador é possível instalar uma rede sem fio.
Felizmente não é o fim das redes com “fio”, uma nova tecnologia denominada de PLC - Power Line Communications (Comunicações pela Linha de Força), é a novidade do mercado. Isso mesmo, já é possível transmitir dados pela rede elétrica. Alguns equipamentos, como da Ovislink, permite conectar computadores por meio da porta de rede RJ45 (presente na maioria dos computadores) à rede elétrica. Os adaptadores PLC custam por volta de R$200,00, o preço do concentrador (Switch, roteador + porta WAN) custa em torno de R$1.500,00. A velocidade de transmissão é um ponto forte da tecnologia PLC, que pode chegar até 85Mbps, enquanto as redes Wireless ficam em média de 50Mbps.
Se você acha que as redes sem fio estão acabando então vale a pena conferir a nova tecnologia PLC, pois ainda não consegui descobrir uma bateria que dure por mais de 5 horas num laptop com tela de 15’ e vários aplicativos rodando !

18 agosto, 2006

A estratégia do vício

A Microsoft lançou recentemente um novo serviço batizado de Windows Live One Care (Fonte: http://www.windowsonecare.com). Depois de muito tempo a gigante resolveu entrar no mercado de antivírus e de proteção contra invasão. Nada seria mais justo do que a própria fabricante do sistema Windows ofertar também proteção contra invasão e correção de problemas. Com cerca de 50 dólares por ano é possível adquirir uma licença de uso do novo serviço.
A surpresa fica por conta da cobertura da licença válida para até 3 computadores. Porém, se você ficava incomodado em pagar licença para usar o sistema Windows, agora você pode ter que acostumar também, a pagar anualmente para a Microsoft para solucionar problemas de vulnerabiliade de seu próprio sistema. Além disso, a Microsoft garante que os usuários do Live On Care não precisarão se preocupar mais com atualizações do sistema Windows, do antivírus, das cópias de segurança e das proteções contra invasões. Não precisa se espantar, é apenas a venda de um novo serviço que você provavelmente precisará comprar caso queira usar seu computador normalmente.
Essa é uma situação em que os usuários do sistema Windows podem refletir sobre o verdadeiro conceito de dependência, resgatando para tal a discussão dos valores do vício. Aliás, o termo dependência parece estar mais relacionado com o conceito de drogas e álcool. Fique tranqüilo, não iremos baixar o nível, são apenas mais alguns bilhões de dólares para as contas da Microsoft. Além do mais, a Microsoft jamais obrigou você a utilizar o sistema Windows, obrigou?

Os desafios da TV digital no Brasil: Entre o cristal e a chama

Pedro acorda às 10h00 da manhã, como de costume por um alerta disparado pelo computador presente em seu quarto. O sinal é sonoro, parece que vem do teto, mas poderia estar na cama ou no guarda-roupa. O interessante mesmo é que o sinal sonoro só para quando Pedro levanta da cama. Ele está agora lavando se barbeando, e o espelho, como se fosse uma tela começa a transmitir diversas informações, dentre elas, os horários das reuniões que Pedro terá na empresa onde trabalha, o valor das ações, as cotações de moeda, o noticiário local e do Mundo. Pedro escolhe o método de exibição da informação, que pode ser em texto, imagem, som ou ambos, mas como ele está se barbeando o preferido quase sempre é a Eva Byte (a mesma do Fantástico, lembra?). Mas Pedro não vai precisar ficar olhando para o espelho do banheiro a manhã toda, pois todos os dispositivos estão interligados, em forma de rede. São compostos pelo espelho do banheiro, monitor da cozinha, tela da sala e dos quartos e também pelo pára-brisa dos dois automóveis que ele e a esposa utilizam. A rede de computadores da família de Pedro é alimentada por agências de prestações de serviços on-line, todas elas presentes na Internet, que além de notícias vendem produtos como alimentos, numa lógica muito parecida com a cadeia de demanda. A geladeira inteligente envia às informações para os fornecedores, as recebe de volta e processa, realizando as compras, mantendo em casa produtos frescos e com ingredientes que não prejudicam a saúde da família de Pedro. Como a geladeira de Pedro realiza tal mágica? Ela possui um computador embutido, e os produtos possuem um chip eletrônico que quando adentram a geladeira passam informação de peso, validade, média de consumo, etc.

Tudo isso é ficção? Na verdade é a mais pura das realidades, e olha que a família de Pedro pode estar no Brasil, no Estado de São Paulo, numa cidadezinha do interior. Possivelmente toda essa nova tecnologia estará refletindo as luzes fascinantes da Internet, como um cristal.

Mas o que isso tem haver com a TV digital? Numa visão simplista a TV poderia ser mais um equipamento (ou eletrodoméstico) de suporte para uso dos computadores, uma espécie de monitor. Seguindo essa visão as grandes indústrias de conteúdo televisivo estariam migrando para a nova mídia, neste caso a Internet. Sinais dessa tendência foram fusões do passado entre AOL e a Time Warner e o surgimento do SOL (SBT on-line) e da Globo.com, sendo essas duas últimas no Brasil. No entanto, a briga por padrões de transmissão de sinais da TV Digital, é o exemplo de que uma nova tendência está acontecendo, ou pelo menos que a Internet tem ainda muito para amadurecer.

Se a TV digital caminha no rumo contrário da história, passando do papel de ator coadjuvante para ator principal, assumindo desde personagens tecnológicos (recepção e transmissão de sinais) até personagens de formatação e distribuição de conteúdo (como a Internet), então valeria creditar que os computadores e a Internet estariam deixando o papel central de ferramentas fundamentais no papel de produção da disseminação de informação. Se isto é verdade então a luz que antes refletia o cristal pode se tornar uma chama, revelando que a TV digital poderá atribuir as grandes indústrias midiáticas poderes ainda maiores, criando grandes monopólios artificiais de informação, sejam elas baseadas no padrão de transmissão europeu ou japonês.

Outro fato é de que optar por um padrão pouco utilizado, como o padrão japonês, ou muito utilizado como o europeu não irá garantir de que novas tendências e tecnologias surgiram daqui alguns meses, superando as existentes, dificultando de alguma maneira as adaptações em ambos os padrões. No entanto, optar por um padrão pouco utilizado pode nos isolar de novas tecnologias e tendências criadas em maiores escalas pelo padrão mais utilizado, trazendo dessa forma possíveis prejuízos para quem adotou um padrão contrário.

O debate de padrões de tecnologias a serem adotadas parece que não é o único exposto, nos remete também uma discussão ainda mais longa: o da exclusão informacional. Segundo o Censo IBGE 2000 somente 10% dos domicílios brasileiros tinham microcomputador, e hoje apenas 11% da população nacional tem acesso à Internet (segundo o Exito Exportador, disponível em http://www.exitoexportador.com). O debate da TV digital com certeza não estará disponível, pelo menos nos primeiros momentos, para as classes sociais menos favorecidas, aquelas que jamais tiveram acesso às outras manifestações culturais, como Jornais, Cinema, Teatro, Internet, etc.

Embora a casa de Pedro nos aponte para as lindas luzes do Cristal novos desafios apontam para uma chama crescente, e pelo que tudo indica poderá exigir do Estado mais do que panos.

Para encerrar compartilho com todos Gilson Schuwartz: “A exclusão digital não é ficar sem computador ou telefone celular. É continuarmos incapazes de pensar, de criar e de organizar novas formas, mais justas e dinâmicas, de produção e distribuição de riqueza simbólica e material.”.